Doutrinação ideológica em Educação Física: autor de denúncia contra UNIVESP mata a cobra e mostra o pau

No curso de Pedagogia da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, futuros professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I são formados para usar a Educação Física como ferramenta de engenharia social.

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No texto que ora publicamos, o autor da denúncia sobre doutrinação ideológica na disciplina “Educação e Cultura Corporal”, do curso de Pedagogia da UNIVESP, analisa a concepção de “Educação Física Cultural”, proposta por Marcos Garcia Neira, explicitando seus fundamentos ideológicos e as implicações desses fundamentos na instituição escolar, especialmente nas aulas de Educação Física. Aluno do curso de graduação em Pedagogia da citada universidade, o autor possui graduação e pós-graduação na área de Educação, além de ter atuado como professor nas redes de ensino pública e particular.

1. Os pressupostos do professor Neira

A Educação Física proposta por Neira não é a Educação Física que a maior parte dos adultos de hoje conheceu em sua época de escolarização. Trata-se de uma Educação Física repaginada, adjetivada como “Educação Física Cultural”. Mas, por que esta mudança? Em que se basearia esta nova proposta?

No vídeo de apresentação da disciplina – aquele, disponibilizado em minha primeira denúncia (clique aqui para ler) – o professor Neira faz as seguintes afirmações:

“Qualquer escola – e, dentro dela, o currículo de Educação Física – tem como projeto a constituição de certos sujeitos, a produção de certas identidades. Nós, nesta disciplina, defendemos que todas as identidades corporais são legítimas”.

A partir destas afirmações, podemos inferir então que, na visão de Neira:

  • A escola tem um projeto identitário;
  • Este projeto visa produzir certas identidades corporais em detrimento de outras;
  • A Educação Física é um dos instrumentos empregados pela escola neste projeto;
  • A Educação Física Cultural proposta por Neira é uma contraposição a este projeto.

Note então que, na visão de Neira, a escola QUALQUER escola, como ele faz questão de salientar não é uma instituição neutra, que pretende apenas ensinar História, Geografia, Matemática e as demais matérias. A escola, para o professor, tem lado, tem posicionamento num projeto que visa privilegiar certos tipos de corpo em detrimento de outros.

Neste contexto, a Educação Física também não se trata de uma disciplina que visa apenas propiciar aos alunos a aquisição de condicionamento físico, dentro daquele velho ideário de “corpo são, mente sã”. Antes, ela é o instrumento por meio do qual a escola mobiliza o seu projeto identitário. A Educação Física Cultural proposta por Neira, então, seria uma forma de se contrapor a este projeto que ele supõe existir.

A pergunta é: qual identidade privilegiada pela Educação Física seria esta? E que interesse teria a instituição escolar em propagar essa identidade?

2. Os fundamentos filosóficos da proposta de Neira

Para responder às perguntas acima, precisamos investigar as concepções que fundamentam os pressupostos de Neira, o que só é possível recorrendo aos próprios textos disponibilizados como conteúdos da disciplina.

Um destes textos é o capítulo de um livro que tem como título o próprio nome da disciplina que fundamenta, “Educação Física Cultural”, de co-autoria do próprio Neira. Em um trecho do capítulo “O Corpo, a família e a escola”, material-base da primeira semana da disciplina, lemos o seguinte:

“Na escola, ensina-se a olhar para o outro e para si mesmo, a classificar e preferir, e a Educação Física é o principal dispositivo para isso”.

“Classificar”, no trecho em questão, tem o sentido de “emitir julgamento”, neste caso, acerca do corpo. Para Neira, portanto, a Educação Física é o principal instrumento pelo qual a escola interfere sobre as preferências dos indivíduos em relação a este ou aquele tipo de corpo, seja o seu próprio, seja o de terceiros. Entretanto, ainda não sabemos que corpo é esse e nem por qual motivo isso acontece. Sigamos adiante.

“Na perseguição de um corpo saudável, disciplinado e produtivo, mesclaram-se apelos morais e científicos, como higiene dos comportamentos e disposição para o trabalho. Foi esse o clima que acolheu e nutriu a Educação Física na escola nos séculos XIX e XX.”

Repare que, neste trecho, são explicitadas as características deste tipo de corpo que, na visão de Neira, a Educação Física tradicional aquela que você conheceu em sua época de escola  visaria produzir: SAUDÁVEL, DISCIPLINADO E PRODUTIVO. Para isto, lançaria mão de apelos “morais e científicos”; ou seja, para Neira, moral e ciência são meras partes constituintes de “regimes de verdade” utilitários, tendo como finalidades reais interferir sobre os comportamentos individuais sob a aparência de busca do corpo saudável, gerando no indivíduo, dentre outras coisas, “disposição para o trabalho”.

Em suma: para Neira, a ideia de “corpo saudável”, propagada pela Educação Física tradicional, é um mero produto ideológico aliado a interesses econômicos. Em outras palavras, a ideia de “condicionamento físico” seria um mero pretexto para domar os indivíduos e formar boa mão-de-obra, como fica ainda mais claro em trecho anterior do mesmo parágrafo:

“…herdeira de tradição científica e política, [a Educação Física] procura educar o corpo como uma máquina privilegiando ordem, hierarquia e produtividade…”

Trocando em miúdos: para Neira, a “face virtuosa” ou seja, a aparência de virtude da antiga Educação Física serviria apenas para dissimular a sua verdadeira função: formar operários produtivos, dóceis e disciplinados. É a partir destas considerações que se pode perceber, nas ideias de Neira, uma profunda fundamentação filosófica primariamente (mas não apenas) marxista, a qual fica ainda mais evidente no seguinte trecho:

“…a escola tornou-se o lugar de consolidação da sociedade burguesa”.

3. Implicações pedagógicas da concepção marxista de Neira

Marx, em “O Manifesto Comunista”, apresenta uma visão de mundo na qual toda a história é um resultado da dialética entre opressores e oprimidos, os quais, no contexto da Revolução Industrial, materializam-se nas figuras da burguesia (os patrões, detentores do meio de produção, ou seja, a classe dominante) e do proletariado (os operários, a classe trabalhadora, dominada pela burguesia).

Nesse contexto, dois conceitos importantes aparecem: ideologia e alienação. A ideologia seria um conjunto de conhecimentos e valores que a burguesia empregaria para dissimular a sua verdadeira intencionalidade e anestesiar o proletariado, levando-o a não se aperceber de sua própria condição como classe oprimida, ou seja, alienando-se. Uma vez que Marx defendia a suplantação da burguesia pelo proletariado, boa parte de sua obra, juntamente com Engels, consiste em denunciar os dispositivos ideológicos de poder de modo a proporcionar a conscientização do proletariado e, consequentemente, sua libertação/emancipação.

O que ocorre é que a visão marxista de mundo é apenas isso: UMA visão de mundo, dentre várias outras perspectivas filosóficas. NÃO SE TRATA DE UMA REALIDADE OBJETIVA, mas sim de uma perspectiva utópica de “igualdade” que trouxe resultados catastróficos em todos os lugares em que foi aplicada como fundamento ideológico para planos de governo. Entretanto, nada disso parece ter peso para impedir que Neira empregue esse mesmo fundamento em sua leitura sobre a educação e, mais especificamente, sobre a Educação Física.

Na perspectiva defendida pelo professor, a escola seria um mero instrumento a serviço da burguesia no sentido de promover a ideologia capitalista e a alienação das classes subalternas. Neste contexto, a Educação Física teria a função de, sub-repticiamente, incutir no proletariado os conceitos e valores ordem, hierarquia, produtividade, disciplina, etc que os tornaria de sujeitos em meros operários, objetos da ideologia burguesa, sob a égide de uma busca por um “corpo saudável”, conceito construído apenas para estimular os proletários a condicionarem seus comportamentos e aceitarem os mecanismos de dominação.

E, uma vez que a proposta de Educação Física Cultural de Neira é uma contraposição à concepção tradicional da disciplina, explicitam-se então as motivações para práticas que, óbvia e justificadamente, despertam estranhamento naqueles que desconhecem seus fundamentos puramente ideológicos. Seguem alguns exemplos:

  • a) Relativização da obesidade, a qual ocorre no vídeo “O Corpo Gordo é uma Obra-Prima”, empregado como material-base na primeira semana da disciplina de Neira: ao dizer que “todas as identidades corporais são válidas”, o que Neira está querendo dizer, na verdade, é que a ideia de um corpo saudável é socialmente construída, e não uma realidade objetiva. Neste caso em específico, o professor comete o erro crasso de confundir percepção estética com saúde. Todo o tom do vídeo gira em torno de levar o futuro professor a perceber a beleza de um corpo obeso. O que precisa ser compreendido é que, se a preferência estética por um corpo obeso é subjetiva, os problemas de saúde relacionados à obesidade não o são, e, ao contrário do que defende o professor Neira, não é prerrogativa de um professor de Educação Física interferir na psique dos alunos de modo a mudar suas preferências e gostos. Isso não é ensino, é manipulação mental. Cabe, sim, ao educador físico ensinar aos alunos as múltiplas formas, cientificamente reconhecidas, pelas quais possam adquirir condicionamento físico, ou seja, munir o indivíduo do conhecimento de hábitos e posturas que mantenham o seu corpo numa condição tal que preserve a sua saúde da melhor maneira possível. Trata-se de uma questão biológica, e não de ideologia. Se um corpo magro não implica necessariamente em saúde, um corpo obeso, tampouco. Neste sentido, é dever do professor ensinar aos alunos o que é saúde, como ela se relaciona aos cuidados com o corpo e os riscos provenientes tanto da escassez quanto do excesso de massa corporal.
  • b) Experimentos psicológicos de gênero em aulas de Educação Física: Engels – e uma série de outros pensadores marxistas – defende que a família é uma das instituições onde a ideologia capitalista se propaga, alienando os indivíduos, uma vez que reproduz as relações de trabalho. Judith Butler, pensadora do feminismo marxista, em consonância com essa ideia, defende que o sexo biológico é uma categoria política, inventada, e não um fato objetivo. Em suma, o que esses pensadores estão dizendo é que as diferenças de comportamentos entre os sexos masculino e feminino não são fenômenos biológicos, mas invenções da burguesia a fim de condicionar o proletariado. E o que isso tem a ver com a proposta de Neira? Ora, em sua Educação Física Cultural, ele dá grande importância às questões do aparato gestual dos indivíduos, afirmando que “as aulas de Educação Física, mediante a oferta de práticas corporais vistas como masculinas ou femininas (…) modelam a gestualidade dos sujeitos”. Ora, se para os pensadores marxistas as diferenças comportamentais entre os sexos são construídas para sustentar o que eles chamam de paradigma civilizacional capitalista, e, para Neira, esse processo ocorre nas aulas de Educação Física, nada mais previsível que a sua contraproposta se preocupe em desconstruir esses “estereótipos de gênero” socialmente construídos. É o que se vê hoje em aulas de Educação Física mistas, ou seja, não mais separadas por sexos e em práticas pedagógicas na disciplina que estão mais preocupadas em mudar a psique dos alunos acerca dos comportamentos que eles atribuem a um sexo ou a outro do que em ensiná-los a lidar com as especificidades de seus respectivos sexos biológicos, conforme elas aparecem. Em suma, trata-se de ideologia de gênero aplicada à pedagogia, mais especificamente, às aulas de Educação Física.
  • c) Desconstrução de valores como hierarquia e disciplina: essa não é uma especificidade da Educação Física, embora, no caso da proposta de Neira, a ela também se aplique. Uma vez que, na visão defendida pelo professor, “hierarquia” e “disciplina” são valores da burguesia, incutidos no proletariado a fim de anestesiá-los em sua condição subalterna, as implicações práticas dessa ideia são propostas pedagógicas em Educação Física em que a interferência do professor e a exigência de resultados por parte dos alunos é cada vez menos presente. Neste contexto, entra aqui um aspecto de fundamento gramsciano o qual também embasa as ideias de Paulo Freire que transpõe a luta de classes marxista para o âmbito cultural. Na visão dos pensadores que defendem esta ideia, ao privilegiar certos tipos de práticas pedagógicas em Educação Física, o professor estaria oprimindo culturalmente o aluno, o qual, sendo considerado também um produtor de cultura, deve ter liberdade para manifestar a sua identidade cultural no espaço escolar, devendo esta ser levada em conta pelo professor. Ora, ninguém discorda que os alunos têm suas próprias preferências; mas, na escola, ele está para aprender, ou seja, apropriar-se de aspectos culturais específicos, no caso, aqueles se referem à saúde e ao cultivo do corpo. Se aluno e professor estão em condição de igualdade e o mero exercício de ensinar a matéria e exigir o aprendizado do aluno é visto como opressão, o resultado é o que estamos vendo hoje: uma escola que ensina cada vez menos, e alunos cada vez mais egocêntricos, totalmente aversos à ordem, à hierarquia, às figuras de autoridade e à necessidade social óbvia do domínio de si mesmos.

4. Considerações Finais

Com base no que foi descrito até aqui, creio que tenha ficado bem clara a fundamentação ideológica primariamente marxista da Educação Física Cultural, defendida pelo professor Neira, bem como algumas de suas implicações práticas. Entretanto, convém lembrar que isso não é nenhum segredo. O próprio Neira admite em uma das vídeo-aulas que os fundamentos de sua proposta não se amparam nas Ciências Biológicas, tampouco nas Ciências Físicas as quais seriam as bases da Educação Física tradicional , mas sim nas Ciências Humanas. O que fiz até aqui foi apenas esclarecer as vertentes das humanidades sobre as quais jaz a concepção de Educação Física do professor.

Entretanto, é necessário que fique claro que não condeno o professor por sua posição ideológica. A liberdade de consciência e crença, prevista em Constituição, permite que ele, dentro de certos limites, acredite e defenda o que lhe aprouver. Quem não tem o direito de ter posição ideológica é a Universidade Virtual do Estado de São Paulo, e ela certamente tem. Isso fica evidente no momento em que instituição privilegia uma única concepção de pedagogia em seu curso. Embora ela dê voz a diversos pensadores, todos eles são adeptos de concepções fundamentalmente marxistas de educação. Concepções tidas como tradicionais são implacavelmente criticadas, sem que haja qualquer espaço para que os pensadores que defendem tais concepções exponham suas ideias de maneira equânime.

Assim procedendo, a Univesp assume a sua posição, a qual se configura não apenas como uma posição pedagógica, mas também ideológica, o que contraria frontalmente o princípio de neutralidade do Estado e o pluralismo de ideias no ambiente acadêmico, ideia esta defendida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Embora a minha análise tenha focado na disciplina que visa munir o futuro pedagogo dos fundamentos e práticas no ensino em Educação Física, convém salientar que o que descrevi até aqui é um padrão que se repete em TODAS as disciplinas ministradas pela instituição. E qual é o resultado disso? Após quatro anos de curso, lendo e repetindo essas ideias nos exercícios e provas, temos um professor polivalente que, dentre outras coisas, relativiza a obesidade, crê que as diferenças de comportamentos entre os sexos são construções sociais, vê com desconfiança valores como hierarquia e disciplina, atribui ao capitalismo todos os males do mundo e utiliza suas aulas não para ensinar, mas para manipular a psique dos alunos, induzindo-os a ter os mesmos gostos, preferências e posições ideológicas das quais ele mesmo se apropriou durante o curso.

Lembrando: estamos falando de futuros pedagogos, ou seja, de futuros professores de crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I, os quais, traduzindo, trabalharão em creches, pré-escolas e escolas primárias. Por isso, reitero o que disse em minha denúncia anterior:

  • Sim, ao dar voz a apenas uma concepção pedagógica ideologicamente fundamentada em seu plano de curso, a Univesp promove, sim, doutrinação ideológica na Educação Física e nas demais disciplinas;
  • Sim, uma vez que ela atrela a Educação Física a um suposto paradigma civilizacional capitalista, duramente criticado nos artigos que promove, ela critica, sim, a concepção tradicional da disciplina;
  • Sim, uma vez que ela atribui à educação a missão de formar agentes de transformação social, defendendo propostas de desconstrução, problematização e ressignificação de comportamentos e valores a partir da escola, como uma contraposição ao que os autores por ela privilegiados chamam de “paradigma social capitalista”, a proposta da Univesp é “reconstruir” a sociedade por meio da educação e, isso é, sim, uma proposta de contracultura e engenharia social.

Por isso, a partir de hoje, tendo lido tudo o que foi escrito até aqui, não se espante mais quando se deparar com práticas como a do experimento psicológico denunciado pela página do Escola Sem Partido (clique aqui para ler). Em resposta ao post em que tal experimento foi divulgado na fanpage do movimento, uma internauta comentou: “Vocês precisam ver o que é ensinado aos estudantes de pedagogia”. E ela estava certa. A prática da professora em questão é apenas fruto do que ela aprendeu por anos no curso de formação de professores na universidade pública, curso este financiado com os impostos dos contribuintes. Esta é a educação que ela recebeu. Esta é a educação que ela dará a seus filhos.

É esta a educação que você deseja?

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